Fonte: Reinaldo Dias, (Ecodebate) - Em 25 de agosto de 2026, durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, realizada em Ulan Bator, na Mongólia, o Brasil apresentou sua primeira Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra. O compromisso reúne 17 submetas e alcança cerca de 3,67 milhões de quilômetros quadrados, equivalentes a 43,1% do território nacional. A dimensão impressiona, mas precisa ser compreendida corretamente. Aproximadamente 95,5% dessa extensão correspondem a áreas nas quais se pretende evitar o surgimento ou o agravamento da degradação. A recuperação ou restauração propriamente dita deverá abranger cerca de 163 mil quilômetros quadrados até 2030.
O anúncio ocorre em um momento no qual a degradação dos solos deixa de ser vista como um problema restrito ao interior do Nordeste e passa a ocupar uma posição estratégica nas discussões sobre clima, água, biodiversidade e produção de alimentos. Essa mudança já estava presente no Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca 2025–2043, lançado em março de 2026. O plano procura articular políticas ambientais, agrícolas, hídricas e sociais, reconhecendo que a perda da capacidade produtiva da terra amplia vulnerabilidades que atingem milhões de pessoas.
A desertificação não transforma necessariamente uma região em um deserto coberto por areia. Trata-se da degradação das terras secas provocada pela combinação entre variações climáticas e atividades humanas.
Quando a vegetação é retirada, o solo é utilizado além de sua capacidade de recuperação e as chuvas se tornam mais irregulares, diminuem a fertilidade, a retenção de água e a biodiversidade. A terra continua existindo, mas perde progressivamente sua capacidade de produzir alimentos, sustentar animais, armazenar carbono e garantir a sobrevivência das comunidades. É nesse sentido que a desertificação constitui também um processo social. Seus efeitos não se distribuem igualmente e recaem primeiro sobre aqueles que dependem diretamente dos recursos naturais para viver.
Um problema que ultrapassa o Semiárido
Seca, aridização, degradação da terra e desertificação são fenômenos relacionados, mas não equivalentes. A seca corresponde a um período de chuvas abaixo do esperado e pode ocorrer em diferentes regiões. A aridização representa uma mudança mais duradoura das condições climáticas, com redução da disponibilidade de água. A degradação envolve a perda de qualidade do solo e da vegetação, inclusive em regiões úmidas. A desertificação, por sua vez, ocorre nas terras secas e resulta da interação entre condições climáticas adversas e formas insustentáveis de utilização do território.
No Brasil, o problema está historicamente associado ao Semiárido, mas não permanece confinado a ele. Estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais indicam que as áreas semiáridas vêm se expandindo em direção a partes da Bahia e do norte de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, secas prolongadas e temperaturas mais altas aumentam a pressão sobre áreas do Cerrado, da Amazônia e do Pantanal. Isso não significa que todos esses territórios estejam se convertendo em desertos, mas revela que a perda de umidade e a degradação ambiental podem ampliar consideravelmente as áreas suscetíveis.
A situação de Gilbués, no sul do Piauí, ajuda a compreender essa complexidade. O município não está situado no centro do Semiárido tradicional, mas em uma região de transição ambiental com chuvas relativamente concentradas. A retirada da vegetação, a mineração praticada no passado, a pecuária e a vulnerabilidade natural dos solos contribuíram para a formação de sulcos profundos e extensas áreas atingidas pela erosão. Em certos pontos, a água das chuvas escoa rapidamente sobre terrenos desprotegidos, remove a camada superficial e abre grandes voçorocas. O problema não nasce simplesmente da ausência de chuva. Paradoxalmente, chuvas intensas sobre um solo degradado podem acelerar a destruição.
Gilbués também demonstra que a degradação não é irreversível. Técnicas de terraceamento, barragens de contenção, revegetação e correção do solo conseguiram recuperar áreas produtivas. Entretanto, a descontinuidade institucional comprometeu parte das iniciativas. Depois de um período de abandono, o Núcleo de Pesquisa de Recuperação de Áreas Degradadas voltou a ser mobilizado, com a previsão de recuperar 1.600 hectares até 2029. Em 2025, um projeto piloto iniciou uma nova etapa de pesquisa em dez hectares, utilizando tecnologias destinadas a favorecer a retenção de umidade e o desenvolvimento da vegetação. O caso reúne, portanto, as duas dimensões do problema brasileiro, a existência de conhecimento técnico e a dificuldade de assegurar continuidade política e financiamento.
A perda do solo chega à produção de alimentos
A erosão não retira apenas terra. Ela carrega nutrientes, reduz a infiltração da água e diminui a matéria orgânica indispensável à produção agrícola. À medida que o solo perde fertilidade, a família rural precisa investir mais para obter uma colheita menor. Quando não dispõe de crédito, assistência técnica ou acesso regular à água, passa a reduzir a área plantada, abandonar determinados cultivos ou vender animais que já não consegue alimentar.
Essa transformação pode ser observada em Cabrobó, no sertão pernambucano, um dos núcleos históricos de desertificação do país. O desmatamento da Caatinga, o pastoreio excessivo, as queimadas e o uso continuado de solos frágeis comprometeram áreas destinadas à agricultura e à criação de animais. Em áreas irrigadas, o manejo inadequado também pode favorecer a salinização. A água evapora rapidamente sob temperaturas elevadas e deixa sais acumulados na superfície. Com o tempo, a terra irrigada para produzir pode perder sua capacidade de sustentar as mesmas plantações.
A desertificação altera a alimentação antes mesmo de provocar o abandono completo de uma propriedade. Desaparecem primeiro os cultivos mais sensíveis ou aqueles destinados ao consumo familiar. A produção pode ficar restrita a poucas espécies resistentes, reduzindo a diversidade dos alimentos disponíveis. O leite, os ovos, a carne e os vegetais cultivados nos quintais também diminuem quando falta água para os animais e para as pequenas plantações. A família que antes obtinha parte significativa de seus alimentos na própria terra passa a depender mais do mercado justamente quando sua renda agrícola está em queda.
Os efeitos ultrapassam os limites das propriedades rurais. A agricultura familiar responde por uma parcela importante dos alimentos frescos consumidos internamente e abastece feiras, pequenos mercados, programas de alimentação escolar e equipamentos públicos. Quando secas sucessivas e solos degradados reduzem essa produção, diminuem a oferta local e aumentam a dependência de alimentos transportados de outras regiões. O encarecimento atinge de forma mais intensa as famílias pobres, que destinam uma proporção maior de sua renda à alimentação.
As cadeias econômicas por trás da terra degradada
A desertificação costuma ser atribuída genericamente à ação humana, uma formulação que esconde diferenças de responsabilidade. Nem todos retiram a vegetação, consomem água ou exploram o solo com a mesma intensidade. Em muitos territórios, famílias pobres participam da retirada de lenha ou do pastoreio excessivo porque dispõem de poucas alternativas econômicas. Os recursos extraídos, entretanto, podem abastecer cadeias produtivas que ultrapassam as comunidades locais.
O Seridó, entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, apresenta um exemplo concreto. A região foi marcada historicamente pelo cultivo do algodão, pela criação de animais, pelas queimadas e pela exploração de lenha. Parte da madeira retirada da Caatinga alimentou fornos de atividades cerâmicas, responsáveis pela fabricação de tijolos e telhas utilizados na construção civil. A vegetação nativa foi transformada em energia barata, enquanto os custos ambientais permaneceram no território.
A retirada continuada da cobertura vegetal deixa o solo exposto ao sol e à erosão. A regeneração da Caatinga torna-se mais lenta quando bovinos, caprinos e ovinos consomem os brotos que surgem após as chuvas. Forma-se, assim, um ciclo no qual a necessidade imediata de gerar renda compromete as bases ecológicas das atividades futuras. Responsabilizar exclusivamente os pequenos produtores ignora que a degradação está vinculada à demanda urbana por energia, alimentos, minérios e materiais de construção.
Irauçuba, no Ceará, apresenta outra combinação entre fragilidade ambiental e pressão econômica. O município está localizado em uma região de chuvas escassas e irregulares, mas as condições climáticas não explicam sozinhas a intensidade da degradação. O desmatamento, o sobrepastoreio e práticas agropecuárias inadequadas reduziram a cobertura vegetal e aumentaram a exposição do solo. A experiência local mostra que a vulnerabilidade natural se converte em desertificação quando o uso da terra ultrapassa os limites de regeneração do ambiente.
Essas situações exigem políticas que não se restrinjam a recomendar mudanças individuais de comportamento. O manejo sustentável da vegetação precisa estar associado a fontes alternativas de energia, assistência técnica, crédito adequado, regularização fundiária e garantia de renda. Caso contrário, exige-se que as famílias preservem os recursos naturais sem lhes oferecer condições materiais para abandonar práticas das quais dependem.
A desertificação amplia desigualdades antigas
Os efeitos da degradação não começam quando a terra se torna inteiramente improdutiva. Eles aparecem no tempo gasto para buscar água, na diminuição dos alimentos cultivados, no endividamento, na perda dos animais e na necessidade de procurar trabalho temporário fora da comunidade. A desertificação aprofunda desigualdades já existentes porque reduz as possibilidades econômicas dos territórios que dispõem de menos infraestrutura e proteção pública.
As mulheres rurais costumam ocupar uma posição central na produção de alimentos para o consumo doméstico, no cuidado com pequenos animais, no cultivo dos quintais e na administração da água. Quando as fontes próximas diminuem ou os reservatórios deixam de atender às necessidades familiares, aumenta o trabalho necessário para manter a casa e a produção. A perda ambiental transforma-se em sobrecarga cotidiana, embora essa dimensão raramente apareça nos cálculos econômicos sobre os prejuízos da seca.
Povos indígenas, comunidades quilombolas e outras populações tradicionais também enfrentam riscos específicos. A degradação ameaça plantas utilizadas na alimentação e na medicina, reduz a disponibilidade de caça, compromete cursos d’água e enfraquece práticas culturais vinculadas ao território. Para esses grupos, recuperar o solo não significa apenas aumentar a produtividade agrícola. Significa conservar relações sociais, conhecimentos e formas coletivas de manejo construídas ao longo de gerações.
A migração constitui uma das consequências mais duradouras. Diante da perda repetida das colheitas e da falta de oportunidades, parte dos moradores procura trabalho nas cidades ou em outras regiões agrícolas. Nem todo deslocamento é definitivo, mas a saída dos jovens, a separação temporária das famílias e o envelhecimento da população rural enfraquecem a capacidade das comunidades de manter sua produção e sua organização social. A desertificação passa, assim, a alimentar a expansão urbana precária, transferindo vulnerabilidades do campo para as periferias.
Conviver com o Semiárido
Durante muito tempo, as políticas públicas trataram a seca como um inimigo a ser vencido por meio de grandes obras hidráulicas e medidas emergenciais. Essa perspectiva frequentemente concentrou água e poder, sem alterar a insegurança vivida pelas comunidades rurais. A ideia de convivência com o Semiárido parte de outra compreensão. A escassez e a irregularidade das chuvas fazem parte das características regionais, mas não precisam produzir fome, dependência e deslocamento quando existem infraestrutura, conhecimento e políticas adequadas.
A atuação da Articulação Semiárido Brasileiro tornou-se uma das principais referências dessa abordagem. As cisternas construídas próximas às moradias armazenam água das chuvas para o consumo familiar. Outras estruturas permitem reservar água destinada à criação de animais e à produção de alimentos. Os bancos comunitários de sementes ajudam a conservar variedades adaptadas às condições locais, enquanto quintais produtivos, sistemas agroflorestais e práticas agroecológicas diversificam a produção e reduzem a exposição das famílias à perda de um único cultivo.
Essas tecnologias são simples apenas na aparência. Uma cisterna modifica a organização do trabalho doméstico, reduz o tempo dedicado à obtenção de água e permite atravessar períodos secos com maior autonomia. Um banco de sementes diminui a dependência de variedades comerciais pouco adaptadas. Um sistema agroflorestal protege o solo, conserva umidade e combina recuperação ambiental com produção de frutas, forragem, mel e outros alimentos.
A participação da Articulação Semiárido Brasileiro na formulação da nova meta brasileira apresentada na COP17 indica que conhecimentos acumulados pelas comunidades começam a ser reconhecidos na política nacional. O Programa Recaatingar segue a mesma direção ao estabelecer a meta de recuperar dez milhões de hectares da Caatinga até 2045. A proposta inclui adubação verde, compostagem, plantio direto e sistemas agroflorestais, procurando associar restauração ecológica, geração de renda e fortalecimento das comunidades.
Entre a extensão anunciada e a transformação dos territórios
A Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra representa um avanço porque oferece referências para evitar, reduzir e reverter a degradação. Sua abrangência nacional também reconhece que o problema não se limita aos núcleos históricos de desertificação. Entretanto, a extensão territorial anunciada não pode substituir a avaliação dos resultados efetivamente alcançados.
A recuperação de 163 mil quilômetros quadrados será insuficiente se novas áreas de vegetação nativa continuarem sendo desmatadas ou degradadas. Neutralidade não significa autorização para destruir em um lugar e compensar em outro. Solos, ecossistemas e comunidades não são peças intercambiáveis. Uma área restaurada ao longo de alguns anos não recompõe imediatamente a biodiversidade e as funções ecológicas de uma vegetação madura eliminada.
O cumprimento da meta dependerá ainda de recursos permanentes, coordenação entre diferentes níveis de governo e continuidade das instituições responsáveis. A experiência de Gilbués demonstra como projetos promissores podem perder capacidade quando centros de pesquisa são abandonados. Também será necessário estabelecer indicadores que mostrem não somente quantos hectares receberam alguma intervenção, mas se o solo recuperou fertilidade, se a vegetação permaneceu, se a água voltou a infiltrar e se as famílias conseguiram ampliar sua produção e sua renda.
As populações atingidas precisam participar da definição, execução e fiscalização das ações. Agricultores, povos indígenas, comunidades quilombolas e organizações locais conhecem as limitações e possibilidades dos territórios onde vivem. Sem essa participação, projetos de recuperação podem privilegiar o plantio de poucas espécies, desconsiderar formas tradicionais de uso da terra ou beneficiar propriedades que já dispõem de maior capacidade econômica.
A desertificação avança lentamente, mas seus resultados permanecem por muito tempo. Ela começa com a retirada da vegetação, a erosão de uma encosta, o desaparecimento de uma nascente ou a redução de uma colheita. Quando esses sinais são tratados como acontecimentos isolados, perde-se a oportunidade de impedir que a degradação alcance um estágio mais difícil e caro de reverter.
O Brasil dispõe agora de uma meta nacional, um plano de longo prazo, experiências comunitárias consolidadas e conhecimento científico suficiente para enfrentar o problema. O verdadeiro significado desses instrumentos será definido nos territórios. Combater a desertificação exige conservar a Caatinga e os demais biomas, recuperar os solos e modificar atividades econômicas que transferem seus custos ambientais às populações mais vulneráveis. Acima de tudo, exige garantir que a terra continue capaz de produzir alimentos e sustentar comunidades, em vez de transformar a permanência no campo em uma luta cada vez mais desigual.
Fontes consultadas
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ARTICULAÇÃO SEMIÁRIDO BRASILEIRO (ASA); SERVIÇO DE ASSESSORIA A ORGANIZAÇÕES POPULARES RURAIS (SASOP). Com contribuição da ASA, Brasil retoma compromissos internacionais contra a desertificação. 27 ago. 2026.
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MOVIMENTO ECONÔMICO. Sucesso no combate à desertificação no Nordeste passa por Gilbués, no Piauí. 17 jun. 2025.
PROJETO COLABORA. Caatinga assume protagonismo no combate à desertificação e recuperação de territórios. 2 jul. 2026.
RESERVA DA BIOSFERA DA CAATINGA. Desertificação: iniciativas para reverter o processo na Caatinga. 17 jun. 2025.
Reinaldo Dias
É articulista do EcoDebate, Mestre em Ciência Política é Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp. Especialista em Ciências Ambientais – USF
Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK
http://lattes.cnpq.br/5937396816014363
reinaldias@gmail.com
Citação
EcoDebate, . (2026). Desertificação no Brasil e o aprofundamento das desigualdades sociais. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/09/10/desertificacao-no-brasil-e-o-aprofundamento-das-desigualdades-sociais/ (Acessado em setembro 11, 2026 at 15:39)
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
