Um estudo com dados de 20 anos e mais de 11 mil cidades mostra que plantar mais verde nas ruas poderia ter evitado 1,16 milhão de mortes por calor e isso muda a forma como eu olho para a árvore da minha esquina
Fonte: Henrique Cortez, (Ecodebate) - Pesquisadores da Universidade Monash cruzaram duas décadas de dados climáticos e de mortalidade em 53 países e chegaram a um número que ainda me deixa sem fôlego: aumentar a vegetação urbana em 30% poderia ter reduzido em mais de um terço as mortes relacionadas ao calor no mundo. Eis o que esse dado significa na prática e por que ele me fez repensar o valor de uma simples árvore de calçada.
Uma manhã quente demais para ser normal
Tem dias, no meio do verão, em que a gente sai de casa e o calor bate diferente. Não é só desconforto, é como se o ar tivesse peso. Eu senti isso de novo há pouco tempo, andando por uma rua sem sombra nenhuma, com o sol batendo direto no asfalto Por que essa rua é tão mais quente do que a de duas quadras atrás, cheia de árvores?
O estudo que coloca números onde havia só intuição
Um grupo de pesquisadores liderado pelo professor Yuming Guo, da Universidade Monash, na Austrália, decidiu medir algo que muita gente já suspeitava, mas ninguém tinha calculado em escala global: quanto de vegetação a mais nas cidades seria necessário para reduzir as mortes causadas pelo calor extremo.
O trabalho, publicado na revista científica The Lancet Planetary Health, analisou duas décadas de dados, de 2000 a 2019, em mais de 11 mil áreas urbanas espalhadas por 53 países.
Para chegar a esses resultados, a equipe cruzou registros diários de mortalidade e de clima de 830 localidades com imagens de satélite da NASA, que permitem medir o nível de vegetação de uma região com precisão, o chamado Índice de Vegetação Aprimorado, ou EVI. É esse índice que mostra, quase como uma fotografia do verde, quanto uma cidade está coberta por folhas, copas e áreas plantadas.
O resultado do cruzamento desses dados é impressionante. Aumentar em 30% a cobertura vegetal das cidades poderia ter evitado mais de um terço de todas as mortes relacionadas ao calor no mundo, entre 2000 e 2019, o equivalente a até 1,16 milhão de vidas.
O que 10%, 20% e 30% a mais de verde significam de verdade
Os pesquisadores testaram três cenários de aumento de vegetação e observaram efeitos muito concretos:
10% a mais de verde reduziria a temperatura média das estações quentes em 0,08°C e evitaria cerca de 860 mil mortes (27% do total relacionado ao calor).
20% a mais de verde baixaria a temperatura em 0,14°C e preveniria cerca de 1,02 milhão de mortes (32% do total).
30% a mais de verde, o cenário mais ambicioso, chegaria a 0,19°C de redução na temperatura média e evitaria 1,16 milhão de mortes, cerca de 37% de tudo o que o calor tira de nós.
Pode parecer pouco, uma fração de grau. Mas quando multiplicamos esse número por milhões de pessoas expostas ao calor todos os dias do verão, em milhares de cidades, ele se transforma em algo muito maior do que um dado de termômetro: vira tempo de vida.
Porque uma árvore esfria mais do que parece
Eu sempre soube que ficar embaixo de uma árvore é mais fresco do que ficar no sol. Eu sei, você sabe e todos sabemos.O que eu não sabia é porque isso acontece em tantas camadas ao mesmo tempo.
A vegetação urbana esfria o ambiente de, pelo menos, três formas simultâneas:
faz sombra sobre superfícies que, sem ela, ficariam expostas e acumulariam calor;
reflete parte da radiação solar antes que ela vire calor armazenado no concreto e no asfalto;
e realiza evapotranspiração (a água que evapora do solo e das folhas) o que resfria o ar ao redor e ajuda a circulação, como um ventilador natural e silencioso.
Só isso já explicaria a diferença de temperatura entre a rua arborizada e a rua pelada que atravessei naquela manhã. Mas há mais.
O estudo aponta que o verde urbano também parece proteger a saúde por caminhos menos óbvios: áreas com mais vegetação estão associadas a menos estresse e mais bem-estar mental, mais interação social, porque as pessoas usam mais as ruas e praças arborizadas —, mais disposição para caminhar ou se exercitar ao ar livre, e até menos poluição do ar. Tudo isso, somado, reduz o risco de morrer por causas ligadas ao calor.
Onde o verde salva mais vidas
Um dos pontos que mais me chamou atenção é que o benefício da vegetação não é igual em todo lugar. As regiões do sul da Ásia, do leste europeu e do leste asiático são as que mais se beneficiariam de mais árvores e áreas verdes, segundo as projeções do estudo.
Em números absolutos de vidas salvas com um aumento de 30% na vegetação, entre 2000 e 2019, a distribuição por região seria:
Região Vidas potencialmente salvas
Ásia 527.989
Europa 396.955
América Latina e Caribe 123.085
América do Norte 69.306
África 35.853
Austrália e Nova Zelândia 2.759
Oceania 2.733
Esses números não são iguais porque as cidades nas diversas regiões não são iguais. Clima, nível socioeconômico, densidade populacional e características demográficas moldam o quanto cada lugar sofre com o calor e o quanto pode se beneficiar de mais verde.
Um problema que só vai crescer
Entre 2000 e 2019, a exposição ao calor já foi associada a cerca de meio milhão de mortes por ano no mundo, um número que tende a aumentar com o avanço das mudanças climáticas. As projeções mais extremas indicam que, entre 2090 e 2099, a fatia de mortes relacionadas ao calor pode variar de 2,5% no norte da Europa a quase 17% no sudeste asiático, dependendo de quanto o planeta continuar aquecendo.
É um número que assusta, mas também é, ao mesmo tempo, uma janela: se o calor mata mais quando a cidade tem menos verde, então plantar é, literalmente, uma forma de cuidado coletivo.
O que eu levo dessa pesquisa?
Não sou urbanista, nem médico, nem pesquisador. Sou jornalista e, como muita gente, sinto o calor da cidade na pele todos os dias. Mas depois de ler esse estudo, não consigo mais olhar para uma árvore de calçada do mesmo jeito. Ela não é só paisagem. Não é só sombra bonita para tirar foto. Ela é, de acordo com a ciência, parte de uma engrenagem que decide quem sobrevive ao verão e quem não sobrevive.
O professor Guo resume isso de um jeito que eu acho bonito e direto: preservar e expandir as áreas verdes das cidades pode ser uma das estratégias mais potentes para reduzir a temperatura urbana e proteger a saúde das pessoas diante do calor extremo.
Talvez a próxima vez que alguém propuser cortar uma árvore para abrir uma vaga de carro, ou que uma prefeitura anunciar mais um canteiro de concreto no lugar de um jardim, valha a pena lembrar desse número: 1,16 milhão. É quanto o verde pode valer, em vidas, quando a gente decide plantar em vez de pavimentar.
* Henrique Cortez, jornalista e ambientalista.
Referência:
Wu Y, Wen B, Ye T et al.
Estimating the urban heat-related mortality burden due to greenness: a global modelling study
The Lancet Planetary Health, 2025; 9, DOI: 10.1016/S2542-5196(25)00062-2
