Fonte: O tempo por Luiz Otávio Barbosa.
A probabilidade de formação de um novo El Niño em 2026 já ultrapassa a marca de 90%, segundo estimativas da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). O evento climático afetará as temperaturas e o regime de chuvas no Brasil, e possui 50% de chance de se configurar como forte ou muito forte, categoria popularmente classificada como "Super El Niño".
O fenômeno ocorre devido ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera profundamente a circulação atmosférica global. A meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Anete Fernandes, esclarece que a definição da intensidade depende da evolução dessa anomalia. “Se eu tenho um aquecimento acima de dois ou três graus, já é considerado um evento forte. Se o aquecimento for ainda maior, ele pode ser mais intenso”, pontua.
Os efeitos reais levam de dois a três meses para serem percebidos na atmosfera e tendem a ser potencializados pelo cenário atual de aquecimento global. Em episódios recentes, como em 2023, o bloqueio de frentes frias provocado pelo fenômeno resultou em ondas de calor extremo mesmo durante o inverno. A associação com as mudanças climáticas acende o alerta para períodos quentes ainda mais intensos e duradouros.
Como o El Niño funciona?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e faz parte do ciclo conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que também inclui o La Niña, fenômeno associado ao resfriamento dessas águas. Mesmo sendo um processo natural, sua influência ultrapassa o oceano e altera padrões atmosféricos em diferentes regiões do planeta. “Ele enfraquece ou até inverte os ventos alísios. Como o Pacífico está ligado à maior circulação oceânica do planeta, isso influencia a circulação global da atmosfera. Por isso os efeitos não acontecem apenas na América do Sul”, explica a meteorologista.
No Brasil, um dos efeitos mais associados ao El Niño é o aumento da frequência de temperaturas elevadas e de ondas de calor. Fernandes lembra que durante o episódio de 2023 o fenômeno já estava configurado ainda no inverno, o que contribuiu para registros incomuns de calor em meses tradicionalmente mais frios. “Nós tivemos ondas de calor até em agosto, que normalmente é um mês de inverno”, relembra.
Impactos diretos em Minas Gerais -Para o estado de Minas Gerais, o principal reflexo da possível confirmação do El Niño será a desregulação do calendário de chuvas. A chegada da estação úmida, esperada entre a segunda quinzena de outubro e o início de novembro, costuma sofrer atrasos significativos durante a atuação do fenômeno oceânico.
Além do atraso, a formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que garante dias seguidos de precipitação no Sudeste, torna-se menos frequente. “Não significa ausência de chuva. Chove, mas geralmente menos que o normal e de forma irregular”, explica Anete.
Agricultura e abastecimento em risco - Enquanto as ondas de calor trazem impactos imediatos à saúde, a agricultura e os reservatórios de água enfrentam consequências a médio e longo prazo. O déficit no volume acumulado de precipitações durante a janela chuvosa afeta diretamente a segurança hídrica do ano seguinte, gerando preocupações para o abastecimento.
Apesar da gravidade das projeções, os especialistas orientam a população a evitar o alarmismo precipitado e a buscar fontes seguras de informação. O monitoramento contínuo continuará sendo divulgado por órgãos oficiais, como o próprio Inmet e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “O alarmismo nunca é bom. Sempre que surgir alguma informação nas redes sociais, o ideal é procurar fontes oficiais”, alerta.