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17/06/2026

Desertos verdes e os conflitos ocultos da economia da celulose

Foto: Fabiana Piontekowski
Ribeiro / EMBRAPA
Quando a monocultura substitui ecossistemas complexos, reduz a variedade de habitats, altera a composição da fauna e da flora e compromete relações ecológicas

Fonte: Reinaldo Dias (Site Ecodebate) - Os chamados desertos verdes avançam sobre territórios rurais substituindo ecossistemas diversos, formas de produção de alimentos e paisagens socialmente ocupadas por extensas áreas homogêneas de eucalipto. Esse modelo concentra terras e decisões econômicas, pressiona recursos hídricos, reduz habitats, ameaça polinizadores, fragiliza a agricultura familiar e subordina municípios inteiros às necessidades de uma cadeia industrial voltada prioritariamente à exportação. Sob a aparência de uma cobertura vegetal contínua, instala-se uma organização territorial comandada por poucas grandes corporações, na qual a diversidade ecológica e produtiva cede espaço à uniformidade exigida pela produção de celulose. O eucalipto, isoladamente, não constitui o problema. Sua madeira possui múltiplas aplicações na fabricação de papel, móveis, materiais de construção e energia, além de poder reduzir, em determinadas condições, a exploração direta de florestas nativas. Os efeitos socioambientais graves surgem quando essa utilidade é incorporada a um modelo de monocultura em larga escala, espacialmente uniforme e concentrado, que destina extensas áreas às necessidades da indústria da celulose, reduzindo a diversidade de usos da terra e ampliando o controle de grandes empresas sobre o território.

O Vale da Celulose e a nova fronteira do eucalipto em Mato Grosso do Sul

A expansão acelerada das plantações industriais de eucalipto em Mato Grosso do Sul revela uma das contradições mais importantes do debate socioambiental contemporâneo, pois nem toda paisagem verde representa recuperação ecológica, assim como nem todo crescimento econômico territorialmente concentrado se traduz em desenvolvimento equilibrado para as populações locais. No leste do estado, a formação do chamado Vale da Celulose passou a simbolizar uma nova fronteira produtiva, marcada por investimentos bilionários, aumento das exportações, atração de grandes empresas e redefinição do uso da terra. A substituição de áreas de Cerrado, pastagens, pequenas propriedades, assentamentos rurais e mosaicos produtivos por extensas monoculturas de eucalipto recoloca, sob novas condições, uma questão conhecida em outras regiões brasileiras: uma plantação homogênea pode parecer floresta quando vista de longe, mas não reproduz a complexidade ecológica, hídrica e social de um território vivo.

A oficialização do Vale da Celulose pela Lei Estadual n. 6.404, de 2025, deu reconhecimento jurídico e político a uma região formada por 12 municípios impulsionados pela cadeia produtiva da celulose: Água Clara, Aparecida do Taboado, Bataguassu, Brasilândia, Cassilândia, Inocência, Nova Alvorada do Sul, Paranaíba, Ribas do Rio Pardo, Santa Rita do Pardo, Selvíria e Três Lagoas. A denominação não constitui apenas uma marca regional criada para fins promocionais, mas expressa uma estratégia de organização territorial, logística e econômica em torno de uma cadeia produtiva que passou a ocupar posição central na economia sul-mato-grossense e vem sendo apresentada pelo poder público como vetor de desenvolvimento industrial, qualificação da mão de obra e ampliação da competitividade estadual.

O crescimento econômico associado à celulose ajuda a explicar a força política do setor e a velocidade com que a região passou a ser tratada como polo estratégico. Em 2025, conforme dados divulgados pelo governo de Mato Grosso do Sul, a celulose assumiu a liderança da pauta exportadora do estado, superando produtos tradicionalmente associados à economia sul-mato-grossense, como soja e carne bovina. O estado enviou 5,8 milhões de toneladas de celulose ao exterior e se firmou como o segundo maior produtor do país. Em termos econômicos, trata-se de uma alteração importante no perfil produtivo estadual, com efeitos diretos sobre infraestrutura, logística, arrecadação, mercado de trabalho e uso da terra.

A construção da maior fábrica de celulose do mundo em Inocência, anunciada pela Arauco, amplia a escala dessa transformação e projeta Mato Grosso do Sul em uma cadeia global de produção e exportação. Empreendimentos dessa dimensão não surgem isolados no território, pois exigem milhões de árvores plantadas, estradas, transporte pesado, terminais, energia, água, áreas contínuas de produção e redes de fornecedores. Em torno da planta fabril, o cultivo de eucalipto passa a influenciar diretamente o uso da terra, os investimentos em infraestrutura, a organização do trabalho e as decisões econômicas dos municípios da região.

Crescimento econômico, concentração de receitas e pressão sobre os municípios

A dimensão territorial alcançada pela silvicultura ajuda a compreender por que a expansão da celulose já não pode ser tratada como fenômeno restrito aos municípios que abrigam suas grandes fábricas. Mato Grosso do Sul possui cerca de 1,79 milhão de hectares cultivados com eucalipto, distribuídos por 74 de seus 79 municípios, embora a maior concentração permaneça na região leste. A presença do cultivo em quase todo o estado demonstra que a cadeia produtiva se estende muito além dos limites oficiais do Vale da Celulose, alcançando áreas fornecedoras de madeira, corredores logísticos e municípios submetidos a mudanças no uso da terra, mesmo quando não recebem diretamente os investimentos industriais mais expressivos.

A expansão é conduzida principalmente por um pequeno grupo de grandes corporações nacionais e estrangeiras. A Suzano mantém unidades industriais em Três Lagoas e colocou em funcionamento uma nova fábrica em Ribas do Rio Pardo; a Eldorado Brasil também opera em Três Lagoas; a empresa chilena Arauco iniciou em Inocência o Projeto Sucuriú, anunciado como a maior fábrica de celulose em linha única do mundo; e a Bracell projeta instalar em Bataguassu uma unidade destinada, entre outros produtos, à fabricação de celulose solúvel. A presença simultânea desses grupos mostra que o Vale da Celulose não é apenas uma região de cultivo, mas um espaço crescentemente organizado em função das decisões de poucas empresas com capacidade de controlar extensas áreas produtivas, grandes investimentos industriais e parte importante da infraestrutura logística estadual.

O dinamismo econômico gerado por esses empreendimentos, contudo, não distribui de maneira uniforme seus benefícios e custos. As fábricas concentram arrecadação, empregos mais especializados e investimentos nos municípios onde estão instaladas, enquanto localidades vizinhas recebem novos moradores, aumento do tráfego de caminhões e maior demanda por habitação, saúde, educação, transporte e saneamento. Algumas administrações municipais do leste do estado passaram, por isso, a reivindicar mecanismos de compensação que permitam repartir parte das receitas produzidas pela cadeia da celulose com cidades que absorvem seus impactos sem sediar as principais plantas industriais.

A concentração das receitas evidencia a distância que pode existir entre os locais onde se acumulam os ganhos econômicos e aqueles onde se distribuem os efeitos territoriais. Municípios próximos aos polos industriais enfrentam crescimento demográfico acelerado, encarecimento dos imóveis, pressão sobre serviços públicos e necessidade de ampliar rapidamente sua infraestrutura, muitas vezes sem contar com recursos proporcionais a essas novas responsabilidades. O desenvolvimento anunciado para a região assume, assim, uma configuração desigual, na qual poucos centros industriais concentram a arrecadação enquanto uma área muito mais ampla participa dos custos sociais, urbanos e ambientais da expansão.

A dependência crescente em relação a uma única cadeia produtiva também reduz a diversidade econômica regional e amplia o poder das empresas sobre decisões relacionadas ao uso da terra, às prioridades de infraestrutura e à organização do trabalho. Quando extensos territórios passam a atender às exigências de fornecimento, transporte e processamento de madeira de poucas corporações, outras atividades produtivas encontram maior dificuldade para disputar terra, investimentos e atenção do poder público. O crescimento da celulose pode elevar exportações e arrecadação, mas também produz uma estrutura regional concentrada, na qual as escolhas econômicas de grandes grupos empresariais passam a influenciar diretamente o futuro de dezenas de municípios.

Monocultura não é floresta

A expressão “deserto verde” nasce da tensão entre aparência e realidade. O verde das plantações extensivas pode sugerir vitalidade ambiental, especialmente em imagens aéreas, peças publicitárias ou campanhas institucionais, mas a homogeneidade da paisagem revela uma dinâmica muito diferente daquela encontrada em ecossistemas nativos. Uma floresta natural é formada por múltiplas espécies vegetais, diferentes estratos, matéria orgânica diversa, fungos, insetos, aves, mamíferos, répteis, anfíbios, microrganismos do solo, cursos d’água e relações ecológicas que se constituem ao longo do tempo. Uma plantação industrial de eucalipto, por sua vez, é um sistema produtivo simplificado, planejado para crescimento rápido, manejo uniforme, corte periódico e abastecimento de fábricas.

Essa diferença envolve água, solo, biodiversidade, microclimas, abrigo, alimento, polinização e circulação de nutrientes. Uma área coberta por uma única espécie arbórea pode manter animais adaptados a ambientes alterados, mas não oferece os mesmos recursos ecológicos que um Cerrado conservado, uma Mata Atlântica em regeneração, um campo nativo ou um mosaico rural diversificado. Quando a monocultura substitui ecossistemas complexos, reduz a variedade de habitats, altera a composição da fauna e da flora e compromete relações ecológicas que não podem ser recompostas apenas com a presença de árvores.

O Cerrado diante da expansão dos desertos verdes

O avanço do eucalipto sobre áreas do Cerrado torna essa discussão ainda mais importante, porque o bioma foi historicamente tratado como fronteira disponível, paisagem vazia ou área de menor valor ecológico quando comparada às florestas densas. Essa leitura sempre foi equivocada. O Cerrado abriga elevada biodiversidade, espécies adaptadas a solos, regimes de fogo, variações de umidade, formações campestres, savânicas e florestais, além de cumprir papel decisivo na regulação hídrica de grandes bacias brasileiras. Ao converter áreas de Cerrado em monoculturas extensivas, a economia da celulose não substitui um vazio por uma cobertura verde. Ela substitui um sistema ecológico complexo por uma paisagem produtiva homogênea, voltada a uma cadeia industrial específica.

Em levantamento publicado em abril de 2026, o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais descreve como a expansão das monoculturas no Vale da Celulose ultrapassa os limites das áreas diretamente plantadas e afeta o funcionamento ecológico e produtivo do entorno. Agrotóxicos utilizados nos cultivos atingiriam hortas, pomares, quintais, Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente, comprometendo espécies nativas do Cerrado e a produção de famílias camponesas. O texto também registra o relato de um apicultor que perdeu quase todas as abelhas de suas 20 colmeias após a aplicação de fipronil em árvores nativas durante o período de floração. A redução de polinizadores prejudica a reprodução da vegetação, diminui a oferta de alimento para a fauna silvestre e contribui para que animais se desloquem até roças e hortas em busca de recursos. Forma-se, assim, uma cadeia de impactos em que a simplificação da paisagem e a contaminação química atingem simultaneamente a biodiversidade, a agricultura familiar e as condições de permanência das comunidades rurais.

A desvalorização histórica das formações abertas do Cerrado se repete em outros ecossistemas, como campos naturais e savanas, frequentemente tratados como áreas de menor importância ambiental por não apresentarem a densidade arbórea das florestas tropicais. Essa interpretação favorece a implantação de monoculturas sob o argumento de que o aumento da cobertura de árvores representaria melhoria ambiental. Campos, savanas e formações abertas, contudo, abrigam espécies adaptadas a condições específicas de solo, luminosidade, temperatura, umidade e regime de fogo, além de contribuírem para a recarga hídrica, a proteção do solo e a manutenção de corredores ecológicos. Sua conversão em plantações homogêneas altera essas condições, reduz a variedade de habitats e modifica a composição da fauna e da flora locais.

Abelhas, água e agricultura familiar como sinais de alerta

A mortandade de abelhas em áreas afetadas pela indústria da celulose em Mato Grosso do Sul, denunciada por apicultores e divulgada pelo Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais e por veículos regionais, oferece um sinal concreto da fragilidade ecológica produzida por esse modelo. As abelhas não representam apenas a atividade apícola ou a produção de mel. Elas estão ligadas à polinização de plantas nativas e cultivadas, à reprodução vegetal, à agricultura familiar, à manutenção de ecossistemas e à segurança alimentar. Quando colmeias desaparecem ou entram em colapso, o problema ultrapassa o prejuízo econômico imediato dos apicultores e passa a indicar alterações mais amplas na qualidade ambiental da paisagem.

A relação entre eucalipto, agrotóxicos, abelhas e lavouras precisa ser tratada com cuidado para evitar conclusões apressadas, mas não pode ser ignorada. Especialistas alertam sobre ameaças da expansão da celulose à água, às abelhas e até a plantações de hortaliças. Indicam que o avanço das plantações industriais pode afetar atividades produtivas vizinhas, sobretudo quando pequenas propriedades, assentamentos e áreas agrícolas diversificadas passam a conviver com grandes extensões de eucalipto. O impacto, portanto, não decorre apenas da presença do eucalipto, mas da combinação entre grandes extensões de monocultura, uso de produtos químicos, concentração da terra, pressão sobre a água e redução da diversidade ecológica e produtiva do território.

A agricultura familiar aparece como uma das dimensões mais sensíveis desse processo, pois a expansão de grandes monoculturas tende a elevar o preço da terra, estimular arrendamentos, modificar o entorno dos assentamentos e reduzir a viabilidade de formas produtivas mais diversificadas. Quando extensas áreas passam a ser destinadas ao cultivo de eucalipto, diminuem as possibilidades de uso da terra para hortas, criação de animais, produção de grãos, frutas e outros alimentos destinados aos mercados locais e regionais. Ao mesmo tempo, os investimentos públicos e privados tendem a se concentrar em estradas, logística, crédito e infraestrutura voltados à cadeia da celulose. Dessa forma, o crescimento das exportações pode conviver com o enfraquecimento da agricultura familiar e com maior dependência de alimentos produzidos em outras regiões.

Entre os impactos da expansão das monoculturas de eucalipto em Mato Grosso do Sul, a pressão sobre a água aparece de forma cada vez mais concreta nas nascentes, nos córregos e no abastecimento das propriedades rurais. Em levantamento de campo divulgado em julho de 2025, o subsecretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valticinez Barbosa Santiago, identificou cerca de 400 nascentes degradadas, secas ou em processo de secamento na região do Bolsão. Em algumas cabeceiras, contou até 116 eucaliptos plantados em áreas diretamente relacionadas à formação dos cursos d’água. Suas observações também registraram uma mudança expressiva na profundidade dos poços artesianos utilizados pela população rural: enquanto anteriormente a água era encontrada a aproximadamente 70 metros, em determinados locais passou a ser necessário perfurar até 130 metros, encarecendo o abastecimento dos pequenos agricultores. A situação se torna ainda mais grave quando plantações avançam sobre nascentes, veredas e margens de córregos, áreas que deveriam conservar vegetação nativa para proteger a infiltração da chuva, a recarga dos aquíferos e a manutenção das vazões. Em uma região coberta por cerca de 1,7 milhão de hectares de eucalipto, a transpiração acumulada de milhões de árvores de rápido crescimento deixa de ser um efeito localizado e passa a interferir no equilíbrio hídrico de todo o território, sobretudo durante os períodos de seca. O climatologista Carlos Nobre também advertiu que plantações situadas próximas a aquíferos retiram grandes volumes de água, especialmente nas estiagens, o que reforça a necessidade de monitoramento hidrológico permanente, fiscalização das áreas protegidas e limites mais rigorosos para a expansão do cultivo.

O que mostram os exemplos internacionais

A experiência internacional ajuda a mostrar que a crítica aos desertos verdes não se limita ao caso brasileiro. Um estudo publicado em 2025 na revista Biological Reviews, examinou impactos globais de plantações exóticas de eucalipto sobre a vida silvestre. A revisão analisou 110 estudos e reuniu evidências sobre abundância, riqueza de espécies, diversidade e composição de comunidades animais em plantações de eucalipto. O resultado geral indica que, em muitos contextos, essas plantações abrigam comunidades de fauna mais pobres ou alteradas em relação aos habitats nativos comparáveis, especialmente quando a monocultura substitui ambientes naturais.

A importância dessa revisão está no fato de tratar o eucalipto como parte de um processo global de transformação de habitats, e não como problema isolado de determinados países. Espécies exóticas de rápido crescimento foram incorporadas a políticas florestais, cadeias de madeira, mercados de celulose e programas de reflorestamento em diferentes continentes. Em muitos casos, essa expansão ocorreu sob a promessa de produzir madeira sem pressionar florestas nativas. O resultado, porém, pode ser contraditório quando as plantações ocupam ecossistemas naturais, áreas agrícolas diversificadas ou territórios comunitários. Nesse caso, plantar árvores não é, necessariamente, restaurar ecossistemas.

O caso das borboletas estudadas em áreas brasileiras de floresta tropical e plantações de eucalipto oferece uma imagem especialmente forte da perda de complexidade ecológica. Pesquisa publicada em 2025 comparou comunidades de borboletas em florestas nativas e plantações de eucalipto, registrando 31 espécies nas áreas de floresta nativa e 21 nas plantações. A diferença numérica já é relevante, mas o aspecto mais expressivo estava na coloração: as espécies mais coloridas, associadas a ambientes mais complexos, tendiam a desaparecer primeiro nas paisagens degradadas ou simplificadas, enquanto espécies de coloração mais apagada permaneciam com maior frequência.

Esse exemplo torna visível uma dimensão da perda de biodiversidade que muitas vezes aparece de forma abstrata. A redução de espécies não significa apenas que há menos animais em determinado local. Ela também pode significar perda de formas, cores, comportamentos, estratégias de defesa, padrões de reprodução e relações ecológicas específicas. As borboletas dependem de plantas hospedeiras, néctar, microclimas, sombra, umidade, refúgios e interações com a vegetação. Quando uma floresta tropical é substituída por uma plantação homogênea, parte desses recursos desaparece. O ambiente permanece verde, mas deixa de oferecer as condições necessárias para a permanência de várias espécies.

O Uruguai oferece um exemplo relevante porque mostra como as monoculturas arbóreas também podem substituir campos naturais, e não apenas florestas. Estudo publicado em 2018 na revista Forests, analisou plantações de eucalipto e áreas de vegetação nativa no país e destacou que campos e formações abertas possuem biodiversidade, dinâmica hídrica e funções ecológicas próprias. Sua conversão em plantações homogêneas altera a luminosidade, a umidade, a vegetação rasteira, o solo e a fauna associada. A comparação é particularmente útil para o Cerrado brasileiro, também marcado por formações campestres e savânicas historicamente tratadas como áreas disponíveis para expansão produtiva.

Moçambique oferece ainda um terceiro exemplo internacional, voltado à herpetofauna, grupo que reúne répteis e anfíbios. Pesquisa publicada em 2024 no African Journal of Herpetology avaliou o impacto de plantações de eucalipto na diversidade de répteis e anfíbios no Parque Nacional de Maputo. Os resultados indicaram menor diversidade nas plantações abandonadas de eucalipto quando comparadas à vegetação nativa não transformada. O estudo mostra que os efeitos da substituição do habitat podem persistir mesmo quando a plantação deixa de ser manejada de forma intensiva.

A relevância desse exemplo está na sensibilidade ecológica de répteis e anfíbios. Muitos deles dependem de condições específicas de temperatura, umidade, cobertura vegetal, serapilheira, corpos d’água, solos e microhabitats. Quando a estrutura do ambiente é simplificada, esses grupos tendem a responder rapidamente. A redução de sua diversidade indica perda de qualidade ecológica do território. Também demonstra que a recuperação de áreas convertidas em monoculturas não ocorre automaticamente com o abandono ou com a retirada parcial das árvores. Restaurar complexidade ecológica exige tempo, manejo, recomposição de vegetação nativa, recuperação do solo, reconexão de habitats e proteção da água.

A linguagem verde e os limites da economia da celulose

A expansão da celulose costuma ser apresentada por meio de expressões como “florestas plantadas”, “economia verde”, “neutralização de carbono” e “desenvolvimento sustentável”. Esses termos ajudam a associar a atividade a uma imagem ambientalmente positiva, mas não substituem a análise de seus efeitos concretos. Uma plantação pode capturar carbono durante seu crescimento e fornecer matéria-prima renovável, ao mesmo tempo que substitui ecossistemas nativos, pressiona recursos hídricos, reduz habitats, utiliza agrotóxicos e concentra extensas áreas de terra. Quando a contabilidade ambiental se limita ao carbono absorvido pelas árvores, perdas sociais e ecológicas importantes permanecem fora do cálculo.

A discussão sobre o Vale da Celulose deve se concentrar no tipo de desenvolvimento produzido quando uma região passa a depender de uma atividade voltada ao mercado externo e controlada por poucos grupos empresariais. Os resultados não podem ser avaliados apenas pelo número de fábricas, pelos empregos anunciados ou pelo valor das exportações, mas também pelos efeitos sobre a água, a biodiversidade, os serviços urbanos, a agricultura familiar, os assentamentos rurais e a autonomia econômica dos municípios. Sem planejamento público, fiscalização e mecanismos de compensação, a linguagem da sustentabilidade pode funcionar como justificativa para um processo que distribui de forma desigual seus benefícios e seus custos.

Conclusão

A expansão do Vale da Celulose consolidou Mato Grosso do Sul como um dos principais polos mundiais do setor, mas a dimensão econômica alcançada pela atividade exige mecanismos públicos de controle proporcionais aos impactos produzidos. Planejamento territorial, fiscalização das Áreas de Preservação Permanente, proteção das nascentes, monitoramento do uso da água, compensações aos municípios afetados e limites à substituição de ecossistemas nativos não podem permanecer subordinados às decisões de empresas cuja prioridade é atender ao mercado internacional.

A geração de empregos, o aumento das exportações e a arrecadação não eliminam a necessidade de avaliar como os benefícios se concentram nas grandes empresas e nos municípios que sediam as fábricas, enquanto pequenos agricultores, apicultores, comunidades rurais e cidades vizinhas assumem custos como a pressão sobre a água, a perda de biodiversidade, o encarecimento da terra, a sobrecarga dos serviços públicos e a redução das alternativas produtivas.

Os desertos verdes demonstram que a degradação ambiental não ocorre apenas quando a vegetação desaparece. Ela também pode avançar em territórios cobertos por árvores, mas organizados como monoculturas extensivas, com pouca variedade de espécies, redução dos habitats, pressão sobre nascentes e cursos d’água, uso intensivo da terra e dependência econômica de poucas empresas. Nesses casos, a presença de uma cobertura vegetal contínua não impede a perda de biodiversidade, o enfraquecimento da agricultura familiar e a concentração das decisões sobre o uso do território. Reconhecer a utilidade do eucalipto não significa aceitar que milhões de hectares sejam organizados exclusivamente pelas necessidades da indústria da celulose. Um modelo de desenvolvimento ambientalmente responsável depende da preservação da diversidade biológica, produtiva e social que permite aos territórios manter suas águas, seus alimentos e suas formas próprias de vida.

Fontes consultadas

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE MATO GROSSO DO SUL. Lei n. 6.404, de 7 de maio de 2025. Dispõe sobre a denominação oficial de Vale da Celulose ao conjunto de municípios impulsionados pela cadeia produtiva da celulose.

CAMPO GRANDE NEWS. Eucalipto ameaça água, abelhas e até plantação de alface, alertam especialistas. 2025; Expansão da celulose ameaça agricultura familiar no Mato Grosso do Sul. 2025; Receita da celulose se concentra e municípios do leste de MS cobram compensação. 2026; Expansão acelerada do eucalipto mata nascentes e ameaça área sensível do Bolsão. 2025.

G1 MATO GROSSO DO SUL. Celulose assume liderança nas exportações do MS após superar soja e carne bovina. 2025.

GOVERNO DE MATO GROSSO DO SUL. Exportações de Mato Grosso do Sul batem recorde histórico e somam US$ 10,7 bilhões em 2025. 2026; Arauco aprova investimento bilionário para instalação de fábrica de celulose em Inocência. 2025.

BIOLOGICAL REVIEWS. Global impacts of exotic eucalypt plantations on wildlife. 2025.

AFRICAN JOURNAL OF HERPETOLOGY. The impact of Eucalyptus plantations on herpetofaunal diversity, Maputo National Park, Mozambique. 2024.

FORESTS. How to Bloom the Green Desert: Eucalyptus Plantations and Native Forests in Uruguay beyond Black and White Perspectives. 2018.

SECRETARIA DE MEIO AMBIENTE, DESENVOLVIMENTO, CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO DE MATO GROSSO DO SUL. Lei estadual oficializa Vale da Celulose como polo estratégico do desenvolvimento industrial em Mato Grosso do Sul. 2025; Projeto da Bracell amplia a cadeia da celulose em Bataguassu. 2025.

THE GUARDIAN. As forests are cut down, butterflies are losing their colours. 2025.

WORLD RAINFOREST MOVEMENT. Brasil: Mortandade de abelhas pela indústria de celulose em Mato Grosso do Sul. 2026; “Vale da Celulose”: Cerrado brasileiro sob cerco do eucalipto. 2026.

RECONECTA NEWS. Celulose lidera exportações e consolida Mato Grosso do Sul como segundo maior produtor do Brasil. 2025.

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