O contexto local, em especial o urbano, pode servir de laboratório para novas ações políticas transformadoras a partir de uma radicalização democrática da participação popular
Fonte: Vilson Vieira Junior, jornalista graduado em Comunicação Social e mestre em Ciências Sociais (UFES), Ecodebate - Ao longo da experiência como repórter em um jornal da minha cidade, Serra (ES), tive a oportunidade de conhecer inúmeras ações, individuais e coletivas, conduzidas por famílias e lideranças populares, que fazem a diferença na vida das comunidades mais pobres. Dentre essas iniciativas, de longe as que mais me chamaram atenção foram as hortas e jardins comunitários. São espaços de uso comum, muitos deles recuperados de condições degradantes, voltados à produção alimentar orgânica e à melhoria da qualidade ambiental nos territórios urbanos.
Atualmente, ao focar meus estudos sobre política e ações coletivas a partir da perspectiva da justiça socioambiental e das mudanças climáticas, pude perceber que tais iniciativas se espalharam pelas grandes cidades brasileiras, unindo pessoas, fomentando a participação e resgatando saberes ancestrais. São exemplos práticos de agroecologia, permacultura, agricultura urbana.
Ailton Krenak dá um nome a tudo isso. É a micropolítica, que se dissemina na sociedade e ocupa o espaço deixado pela macropolítica, aquela tradicional e institucionalizada, que, segundo ele, virou motivo de “desilusão”. Em seu livro A Vida Não é Útil (2020), Krenak aponta quem são os atores dessa forma alternativa de se fazer política: “Os agentes da micropolítica são pessoas plantando horta no quintal de casa, abrindo calçadas para deixar brotar seja lá o que for. Elas acreditam que é possível remover o túmulo de concreto das metrópoles”. Esses “agentes da micropolítica” se espalham pelo país almejando, na luta cotidiana, mais qualidade de vida para as comunidades a partir de iniciativas inspiradas na natureza e nos saberes coletivos – conheça outras ações aqui.
O primeiro exemplo que destaco vem do Morro Jaburu, em Vitória (ES), onde o líder da comunidade, em parceria com moradores e ONGs, criou o Circuito Verde, que abrange hortas, áreas verdes e até locais de contemplação da paisagem da cidade e exposição de arte por meio de painéis pintados em muros e paredes das residências. A ideia do morador não apenas deixou o bairro mais bonito e verde; também transformou vícios antigos da população local, que antes descartava seu lixo nesses pontos que, hoje, dão orgulho à comunidade e lhe proporciona inúmeros benefícios. Esse trabalho rendeu o reconhecimento da Câmara de Vereadores da cidade, que homenageou a iniciativa.
Experiência semelhante que nasceu por meio da mobilização social e do saber cotidiano vem da Comunidade Caranguejo Tabaiares, no bairro do Bongi, Zona Oeste do Recife (PE). Por lá, moradores se uniram para transformar uma antiga área abandonada de escombros e concreto, que servia para descarte de lixo e trazia calor e alagamentos, na Horta Comunitária Semeando Resistência. Com árvores frutíferas e hortaliças, além de flores e plantas nativas, o espaço é resultado da junção entre o esforço coletivo e os diversos saberes e práticas que compõem a comunidade. Isso mudou o dia a dia de centenas de famílias, que passaram a viver num ambiente mais agradável, arborizado e com acesso livre a alimentos saudáveis.
No Rio de Janeiro, a mobilização coletiva e o resgate de práticas e saberes de moradores mais antigos do bairro Jardim Sulacap, na zona oeste da capital fluminense, revitalizaram um terreno abandonado e insalubre, tornando-o um espaço sociocultural, de convivência e produção de alimentos sem agrotóxicos e transgênicos. É o caso da Horta da Praça Quincas Borba, que surgiu do desejo daquela comunidade de transformá-la num lugar mais sustentável. Uma ação que resulta da convergência de esforços entre população local, movimento comunitário e organizações sociais na busca por cidades não apenas mais resilientes, mas também conscientes de seu relevante papel no enfrentamento dos desafios ambientais da atualidade, pondo em prática conhecimentos e experiências cotidianas que reaproximam sociedade e natureza.
A Universidade de São Paulo (USP) reconheceu a importância desses tipos de ação ao produzir, em parceria com outras entidades, a cartilha Hortas Comunitárias e Território Urbano: Educação, Políticas Públicas e Transformação. Esse trabalho, inspirado em experiências e saberes de quem luta por cidades mais verdes e resilientes, oferece diretrizes à criação e ao fortalecimento de hortas comunitárias, com vistas a aprimorar a participação popular em políticas públicas voltadas a tais espaços.
A ideia foi desenvolvida no âmbito do projeto Corredor Caipira: Conectando Paisagens e Pessoas, que, segundo destaca o Jornal da USP, “busca unir comunidades, movimentos sociais e instituições para fortalecer práticas coletivas de cuidado com a terra, valorizar a cultura local e construir vínculos sólidos entre as pessoas e seus territórios, estimulando experiências educadoras que transformem os espaços urbano e rural em locais de convivência, aprendizado e biodiversidade”.
Dessas simples experiências forjadas no limitado espaço urbano, mas com benefícios que ultrapassam as fronteiras da pólis, nascem novas práticas políticas (ou micropolíticas) que impactam de maneira estruturante a sociedade. São ações que, vistas sob um prisma menos individual e mais coletivo, têm sim potencial para transformar as estruturas de um modelo econômico baseado na exploração predatória da biodiversidade e alheio aos desafios da vida no planeta.
Portanto, é imperativo que todos reconheçam o valor embutido nessas iniciativas para o bem comum, visto que reforçam os laços vitais entre homem e natureza. Acredito que as comunidades periféricas devem figurar, cada vez mais, como protagonistas das soluções políticas climáticas e socioambientais, com seus saberes e práticas de resiliência empregados pelo bem de seus territórios. Nesse sentido, o contexto local, em especial o urbano, pode servir de laboratório para novas ações políticas transformadoras a partir de uma radicalização democrática da participação popular, proporcionando vivências coletivas, resgatando saberes ancestrais e o compartilhamento de experiências cotidianas.

